14.1.12

92 lindos anos



As memórias que nos ficam retidas e que nunca queremos esquecer deixam-nos um doce-amargo na boca,não porque queremos sofrer mas sim porque não conseguimos voltar a vivê-las e a sentir a boa sensação que é ser feliz.Assim vamos ao nosso baú das recordações que guardamos religiosamente nos nossos corações e rebuscamos as que queremos.Hoje só posso lembrar-me de todos os momentos  de alegria que tive contigo,das nossas tristezas,dos momentos difíceis,do que aprendi contigo,da tua imagem,do teu amor pelos filhos,pelos netos e em especial pela Mãe.Da tua partida e de quanto me fizeste,me fazes falta.Hoje seria mais um aniversário teu (e como tu gostavas de festejar este dia),seriam 92 lindos anos.Parabéns Pai continuo a amar-te muito.

1.1.12

FIM DE ANO



Batiam as doze badaladas e não sabia o que fazer,esses segundos tornaram-se anos,uma vida.Tudo veio aos seus olhos húmidos de lágrimas,crianças a correr subindo num frenesim para as cadeiras,tostões nas mãos para deitar para a janela e notas grandes para atirar depois,da janela para dentro de casa,a mãe punha-lhe o fio de ouro e enchia-lhe a mão com doze passas e o seu pequenino coração batia de um modo que podia senti-lo no casaco azul feito pala avó.Depois ainda com a boca cheia de passas,que mal conseguia engolir,olhava para as outras crianças todas rosadas daquele rodopio e risos e abraços,beijos doces dos pais e a festa continuava até já não terem força para bater as tampas das panelas,e assim deitados nos sofás ficavam até adormecerem ouvindo as histórias dos pais,recebendo as carícias dos avós que lhes afagavam os cabelos. Deixou-se cair numa cadeira,com a cabeça entre as mãos,sentia-se sem forças para fazer qualquer coisa,e já tinha entrado noutro ano,afinal era só mais um.Afinal era só passar de um dia para o outro,de uma hora para a outra,então porquê? Porque tinha que fingir que tinha que viver esse momento em histeria se já não sentia a graça daqueles dias,se a magia tinha desaparecido.Porque tinha que mostrar um sentimento que não tinha,alegria que não havia,emoção que não sentia.E tudo isto era só o começo de um ano,o começo de uma vida,da sua vida.

4.11.11

OUTONO



Era o tempo das tempestades.
Chovia na rua e o vento soprava arrastando tudo com tremenda força,as folhas das árvores,secas pelo sol de verão,caíam desesperadamente no chão por pouco tempo,pois então iniciavam uma dança frenética,em redemoínhos lançando-se no ar como que a loucura ali estivesse.
Depois,através das poças de água acumuladas nas ruas,passos apressados de gente olhando em volta como se o mundo terminasse ali,nesse momento.Com o olhar carregado de medo e o rosto comprimido pelo ar frio da manhã pareciam máquinas e não humanos que caminhavam nas ruas.
Por entre a janela,ela olhava minuciosamente o espectáculo.
A chuva caía disparatadamente,os carros levantavam ondas de água suja ao passarem,molhando quem andava nos passeios,as crianças choravam,molhadas pela chuva intensa e pelos olhos assustados (sem explicação)dos pais.
Passou o tempo.O céu foi deixando que o sol rompesse as nuvens cinzentas e o azul aparecesse,o vento e a chuva acalmaram voltando a mansidão.
As folhas das árvores cansadas da dança louca descansavam formando pequenos montes no chão,O sol enfim mostrou-se mais descaradamente,como se estivesse rindo das pessoas e todos olharam o céu.Aos poucos os rostos crispados dos adultos íam-se tansformando e sómente se via cansaço,as crianças paravam o choro e entre pequenas risadas pulavam ora nas poças de água ora nos montes de folhas.A brisa suave e fria tornava os seus pequenos rostos vermelhos e elas riam porque agora era o tempo da calmaria,da mansidão e a vida continuava como sempre,igual,como sempre.
Ela espreitava pela janela,olhando minuciosamente tudo, e duas,únicamente duas lágrimas corriam pelo rosto envelhecido.

29.9.11

HÁ DIAS




Há dias em que a saudade é tão forte que dói o peito e um aperto na garganta quase não nos deixa falar,e então,elas vêm as memórias de outros tempos,anos de meninice,traquinices de crianças,risos,corridas e saltos,livros e bonecas,tempos de verão na praia,festas de anos,medo da rainha má da bela adormecida que só o colo da avó serenava.Depois,anos de adolescência,anos de muitos amigos,algumas descobertas e muita insegurança.E depois tudo passa a correr,acabámos de estudar,já não somos mais crianças,crescemos por fora e por dentro.Atingimos o estatuto de adulto.E agora? Que fazemos,com quem estamos, o que queremos?
São anos de grande alvoroço dentro de nós e em nosso redor e quase sem escolha temos uma vida á nossa frente que nem queríamos que fosse dessa maneira,temos medo e o colo da avó já não está ali,vamos em frente porque somos adultos(?)
Enfim!Vamos vivendo esta nossa vidinha (como diria um grande amigo meu) e quando chegarmos ao fim queremos que seja rápido e indolor.
Há dias em que a saudade é tão forte que dói o peito e um aperto na garganta quase não nos deixa falar,porque sentimos a falta de quem nos deixou,queremos o colo e o abraço apertado do Pai,saudades do sorriso doce e dos beijos tão especiais que só a Mãe sabe dar.E o abraço escangalhado do irmão.E o que mais faz confusão é não conseguir ouvir ou melhor explicar como eram as vozes,as gargalhadas e os risos escondidos.Há tristeza por detrás do Natal,as prendas já são tão poucas,as filhoses não têm nunca mais terão o mesmo sabor.
Vamos vivendo esta vidinha(como diria um grande amigo meu) e quando chegarmos ao fim queremos que seja rápido e indolor.
Há dias em que a saudade é tão forte que dói o peito e um aperto na garganta quase não nos deixa falar,e temos saudades do nosso filho em pequenino,pensávamos que o iríamos proteger para sempre de todo o sofrimento,de toda a dor,que os dias dele iriam ser só felicidade,quase como nos contos de fadas,"e iriam ser felizes para sempre...",e então vem esta vontade enorme de o ter outra vez nos braços,de lhe afagar os cabelos e cobri-lo de beijos como em criança...e sabemos que a vida não é assim,que eles fazem quase o mesmo percurso que nós e que vai doer e nós não queremos e o peito aperta-nos a garganta e dói e caiem as lágrimas porque não podemos fazer nada.
E então vamos vivendo esta vidinha (como diria um grande amigo meu) e quando chegarmos ao fim queremos que seja rápido e indolor

26.9.11

NO CÉU

O meu filho tinha cinco anos quando o meu Pai morreu.Ele tinha uma grande ligação afectiva com o Avô e o sentimento era retribuído com o mesmo amor. Um dia encontrei o meu filho,de nariz encostado á janela do seu quarto,olhando o céu com um ar demasiado sério.Ao sentir-me ali perguntou-me,sem tirar os olhos das nuvens e com a inocência que só as crianças têm, se o Avô tinha ido para o céu.Nestas situações embora achemos que sabemos tudo,ficamos como diria meu Pai, " às aranhas" . Achando que era melhor não prolongar o assunto respondi que sim. Do alto dos seus poucos anos,virou-se para mim e disse-me "sabes mamã,estou a pensar se o Avô terá uma nuvem só para ele, com um cadeirão para se sentar e um banquinho para descansar os pés e se ele levou a boquilha para poder fumar".Era a imagem que tinha do Avô tão querido para ele, e assim o procurava numa nuvem. É evidente que confirmei tudo o que o pertubava para assim o voltar a ver em paz.Esta é uma das histórias mais bonitas que vivi com o meu filho mas tudo isto veio-me á memória porque daqui a dois dias o meu irmão Carlos faria cinquenta e nove anos eu queria estar com ele,então pensei será que algures no céu, ele está meio sentado meio deitado num sofá, com uma televisão á sua frente a ver o seu clube preferido,e um jornal ou um livro na mão? No sábado irei olhar o céu com mais atenção e hei-de enviar-te um beijo cheio de saudade meu irmão.

6.8.11

ACREDITAR




Entrou no consultório,acompanhado pela filha,e ali ficou fitando o médico e esperando.A filha desculpou-o perante o médico" o doutor desculpe mas o meu pai quer outra cadeira para colocar ao lado dele".O médico ainda novo,sem conhecer o doente ofereceu-lhe outra cadeira que este logo pôs ao seu lado completamente vazia.Depois de observado foi para casa deixando o jovem doutor meio confuso,pensava ele que seriam manias de velho.
Um mês se passou e voltando ao consultório,desta vez com um ar mais cansado e uma tosse compulsiva,o nosso jovem médico nem hesitou e colocou de imediato a cadeira a seu lado.Nessa tarde conversaram um pouco mais,e este homem de idade avançada mostrou-se um sábio conhecedor da vida.Ao despedirem-se o médico tentou,em vão,saber porque queria ele a cadeira a seu lado.
Meses passaram mas a imagem daquele homem não saía do pensamento do médico.Uma tarde apareceu a filha para se consultar,e ele,o nosso jovem,perguntou já no fim da consulta pelo pai da sua doente.Ela, serenamente,respondeu-lhe que o Pai tinha morrido.Ao ver o rosto transtornado do médico apressou-se a dizer-lhe:"Mas descanse doutor o meu Pai morreu feliz,ele todas as noites pedia para pormos uma cadeira ao lado da sua cama e um dia de manhã estava deitado sobre a cadeira,tinha um ar de felicidade no rosto e tinha morrido como sempre quisera,deitado sobre os joelhos de Jesus".


4.8.11

FUGA



Emigrei para dentro de mim.
Protegi-me o mais possível para que ninguém desse pela minha ausênsia.
Agora olho á minha volta e sim,tenho paz.
O desassossego constante da minha vida lá fora já não me faz nada,não me irrita,não me prejudica.
E o melhor é que ainda não deram por isso,não,não estou cá!Emigrei!Não veem!?Não sentem!?
Adeus...