Descíamos por uma rua estreita
e sombria, não bastasse estarmos num cemitério e já o cenário era pesado. Dos
dois lados da rua grandes blocos de cimento com pequenos espaços onde
repousavam os restos mortais de uma imensidão de gente. Enquanto caminhávamos
ia pensando quem seriam todas aquelas pessoas, há tanto tempo ali esquecidas,
como teriam elas vivido, como teria sido a vida delas, ao mesmo tempo que
acompanhava a pequena urna onde depositaram as cinzas de minha tia e sabendo
que também ela em vida tinha pedido para ir para ali, para junto de seu marido,
no mesmo espaço, exactamente como tinha sido em vida, partilhando tudo e sempre
até que a morte os separou. Naquela rua comprida e sempre a descer, nada mais
víamos que não fosse o mesmo cenário, triste cenário de despedidas.Passávamos
por algumas, poucas pessoas que ali estavam a falar com os seus mortos, todas
já com idade avançada, magras e de rosto triste. Nada mudava a cada esquina
dobrada, sempre igual, sempre a mesma rua estreita e sombria,os mesmos rostos. Sentei-me num
banco. O cansaço, a tristeza nas caras , a solidão daquelas pessoas junto aos
pequenos cacifos como se o mundo tivesse terminado ali, fizeram com que me
sentasse quase sem dar por isso.E nesse momento em que os outros seguiam e eu
tinha ficado ali, o que aconteceu não irei esquecer jamais. Um homem idoso,91 anos, com o cabelo tão branco que se confundia com a camisa branca
que vestia, fato e gravata preta, sentou-se a meu lado. Tinha um rosto sereno e um sorriso tranquilo.Na sua voz,quase apagada mas doce
disse-me sem eu ter feito uma única pergunta, como se quisesse explicar o
quanto importante era para ele estar ali. Disse-me que a sua companheira de 60 anos de vida, tinha partido e todos os dias, duas vezes por dia, ele fazia
aquela caminhada de 45 minutos para baixo e 60 minutos para cima que as pernas
já não ajudavam, para estar com ela, “ali ao fundo da rua, onde já se vê o
Tejo, vê?”. Acenei com a cabeça afirmativamente e ele continuou dizendo que o
mundo já não lhe interessava. E terminou dizendo “Sabe, o tempo que tenho para
viver já é pouco para perdê-lo com os outros,
passo-os com ela, por isso venho cá sempre duas vezes por dia, todos os dias até ao dia em que estiver junto dela ”.
E foi-se embora, devagar, arrastando os pés suavemente pelo passeio. Aquele momento tão curto mas intenso de amor e dedicação deixaram-me comovida,enternecida.Lembrei-me dos meus que também já tinham partido e todo o sentimento que nos deixaram. Comecei a olhar para as
pessoas que ali estavam a falar com os seus mortos de outra maneira, compreendia
as suas emoções e já nem me pareciam tão tristes, só esperando a sua vez de
irem ter com os seus amores.
Cheguei
por fim ao local onde a minha tia iria descansar eternamente junto ao amor da
sua vida, enviei-lhes um beijo
saudoso em duas rosas.
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