Porque
o medo de chegar a velho é tão forte que tentamos com todas as nossas forças
mantermo-nos jovens até ao dia em que nos dizem, amanhã já não vens trabalhar,
já és reformado, estás velho, cansado, as tuas mãos tremem quando escreves ou
pegas num objecto, o teu cabelo branco é triste, os teus olhos não sorriem,
estás trôpego e cais com facilidade, a tua memória falha e as tuas palavras são
ditas em surdina porque não tens força para falar, porque tens medo, e tudo
isto porque sabes que a partir de hoje já não te respeitam, não te consideram
uma pessoa comum és apenas um velho. Um velho que não quer ser deixado no
hospital porque não o querem, que não quer que o ponham num qualquer lar e
nunca mais veja os seus filhos e os seus netos, que não quer ser considerado um
cidadão de segunda, que não quer ser arrumado, que não quer ser lamentado,
humilhado, desconsiderado. Que não quer ser o riso dos que passam, a troça dos
miúdos, o abandonado, o coitadinho, o abandonado.
Por
isso quando chegar o meu tempo e porque nada mudou, quero indignar-me e
juntar-me a tantos outros que como eu que não querem ser postos no lixo. Quero
ir para as ruas gritar que sou um cidadão deste país e mereço, quero, o
respeito a consideração e dignidade a que tenho direito.
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