Todos os dias corriam da mesma
forma, sempre iguais, sempre enfadonhos e depois a chuva, há quantos dias
chovia? Talvez um mês ou uma semana, não sabia mas era muito tempo. Tudo em si
o aborrecia, desde o cabelo aos sapatos cansados de tantas idas e vindas quase
sempre ao mesmo sítio, e depois a chuva, sempre a cair, molhava estupidamente
os vidros do velho carro que quase não conseguia mantê-los visíveis. Cansado,
cansado de si, da vida, das pessoas não parava. Se viesse um pouco de sol…era
uma esperança que o deixava ir vivendo os dias olhando o céu, espreitando por
entre as nuvens escuras, carregadas de água, uma luzinha, uma réstia de sol. E
depois a chuva, nunca parava e já começava a sentir que mesmo que não chovesse,
a chuva continuava na sua cabeça, no seu olhar no seu corpo, se ao menos ela
parasse. Sentia-se velho e no entanto a idade não era muita mas sentia que não
passava de um velho. E depois a chuva não parava nunca. Os amigos já o
cansavam, sempre as mesmas perguntas e as conversas não pareciam ter mais temas
do que os de sempre e nunca tinham fim, sempre o mesmo café á noite, as
pessoas, os ruídos, os cheiros, como se sentia cansado, enjoado talvez fosse
adequado ao que sentia, o estômago enrolava-se sempre que tudo isto acontecia,
o trabalho, as pessoas, os amigos, as idas ao café, as saídas enfim a vida, e
depois a chuva que não parava mesmo que houvesse sol.
3.5.12
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